Quando criança sonhava que
voava. Tantas cores, luzes, planetas, estrelas e galáxias. Acordada tinha
árvores, flores e borboletas, corria sentindo o vento no rosto e o cheiro da
terra molhada.
Já menina os sonhos às vezes
eram estranhos. Outros mundos, outros seres e medo...
Gostava da vida como era, mas
vieram as decepções, e ela teve que crescer, afinal todos crescem.
Seguiu a vida com suas
esquisitices, ainda sonhava, mas muito raramente voava, e até mesmo os sonhos
estranhos raramente aconteciam, mas continuou sonhando acordada.
Sonhava com utopias, respostas que nunca vinham, perguntas que não sabia mais responder, e projetos mentais que nunca se realizavam.
Aprendeu a conviver com o “não”, porque pensava diferente das pessoas ditas normais.
Sonhava com utopias, respostas que nunca vinham, perguntas que não sabia mais responder, e projetos mentais que nunca se realizavam.
Aprendeu a conviver com o “não”, porque pensava diferente das pessoas ditas normais.
Ela se perguntava o que era
normal, não entendia tantas regras, dogmas e preconceitos. Via no ser
humano tanta preocupação em estar dentro dos padrões, da normalidade, e percebia também tanta falta de alegria, tanta gente infeliz!
Certa vez alguém disse à ela
que ninguém poderia mudar o mundo, porque ele era assim desde o começo dos
tempos, mas ela queria tanto mudá-lo! Senão o mundo inteiro pelo menos um
pedacinho dele.
Foi a amargura de tantos “nãos” e a dor daquele mundo cinza cheio de regras que começaram a pesar nos ombros dela. Não
havia mais cores, nem borboletas, nem nada daquilo que havia antes nos sonhos
ou em sua vida.
Tudo se tornou frio e cinza,
envolto em um silêncio doloroso, porque a alma dela havia se calado.
Cansada caminhou até um lugar
conhecido, que no passado era cheio de beleza e sons agradáveis. Talvez
estivesse tentando reencontrar a si mesma.
Subiu devagar o caminho que levava até a beira daquele penhasco de onde antigamente apreciava o mundo.
Subiu devagar o caminho que levava até a beira daquele penhasco de onde antigamente apreciava o mundo.
Parou lá em cima e olhou tudo
ao redor, nada era igual. Lá embaixo apenas o cinza inundava tudo, aquele mesmo
cinza desbotado que há muito tinha invadido seu mundo interior.
Fechou os olhos e suspirou.
Por uma fração de segundo teve a impressão de sentir o perfume das flores que
ela já não enxergava.
Abriu os braços, olhou o céu
e se libertou.
Antes mesmo de o seu corpo
alcançar as pedras ela se desvencilhou daquela carapaça cansada que prendia sua
alma.
Agora já podia sentir o vento
fresco em seu rosto, o cheiro da terra, e ouvia a música dos anjos.
Novamente ela podia voar, o mundo
estava aos seus pés, ou melhor, sob suas asas, e ele era colorido!
