sábado, 14 de julho de 2012

Liberdade






Quando criança sonhava que voava. Tantas cores, luzes, planetas, estrelas e galáxias. Acordada tinha árvores, flores e borboletas, corria sentindo o vento no rosto e o cheiro da terra molhada.
Já menina os sonhos às vezes eram estranhos. Outros mundos, outros seres e medo...
Gostava da vida como era, mas vieram as decepções, e ela teve que crescer, afinal todos crescem.
Seguiu a vida com suas esquisitices, ainda sonhava, mas muito raramente voava, e até mesmo os sonhos estranhos raramente aconteciam, mas continuou sonhando acordada. 
Sonhava com utopias, respostas que nunca vinham, perguntas que não sabia mais responder, e projetos mentais que nunca se realizavam. 
Aprendeu a conviver com o “não”, porque pensava diferente das pessoas ditas normais.
Ela se perguntava o que era normal, não entendia tantas regras, dogmas e preconceitos. Via no ser humano tanta preocupação em estar dentro dos padrões, da normalidade, e percebia também tanta falta de alegria, tanta gente infeliz!
Certa vez alguém disse à ela que ninguém poderia mudar o mundo, porque ele era assim desde o começo dos tempos, mas ela queria tanto mudá-lo! Senão o mundo inteiro pelo menos um pedacinho dele.
Foi a amargura de tantos “nãos” e a dor daquele mundo cinza cheio de regras que começaram a pesar nos ombros dela. Não havia mais cores, nem borboletas, nem nada daquilo que havia antes nos sonhos ou em sua vida.
Tudo se tornou frio e cinza, envolto em um silêncio doloroso, porque a alma dela havia se calado.
Cansada caminhou até um lugar conhecido, que no passado era cheio de beleza e sons agradáveis. Talvez estivesse tentando reencontrar a si mesma. 
Subiu devagar o caminho que levava até a beira daquele penhasco de onde antigamente apreciava o mundo.
Parou lá em cima e olhou tudo ao redor, nada era igual. Lá embaixo apenas o cinza inundava tudo, aquele mesmo cinza desbotado que há muito tinha invadido seu mundo interior.
Fechou os olhos e suspirou. Por uma fração de segundo teve a impressão de sentir o perfume das flores que ela já não enxergava.
Abriu os braços, olhou o céu e se libertou.
Antes mesmo de o seu corpo alcançar as pedras ela se desvencilhou daquela carapaça cansada que prendia sua alma.
Agora já podia sentir o vento fresco em seu rosto, o cheiro da terra, e ouvia a música dos anjos.
Novamente ela podia voar, o mundo estava aos seus pés, ou melhor, sob suas asas, e ele era colorido!


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